Fôrmas exatas


Texto original de Bruno Loturco




Paulo Nobuyoshi Assahi



Engenheiro civil formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Assahi iniciou a carreira na área de projetos. Atuou depois como engenheiro de obras por 10 anos e há 20 dedica-se ao estudo e projeto de fôrmas de madeira. Atualmente, é sócio-diretor da Assahi Engenharia, fundada em novembro de 1982.

A empresa assinou, em 2004, o milésimo contrato de projeto e produção de fôrma. O engenheiro, um dos maiores especialistas nesse campo, participa anualmente, como professor convidado, do curso de pós-graduação em tecnologia de edificações do Pece (Programa de Educação Continuada em Engenharia), da Poli-USP.





O custo com projeto, material e execução de fôrmas pode chegar a 7% do total da obra. Só isso seria um bom motivo para dar mais atenção a essa etapa, mas há outras razões igualmente importantes. É o que mostra o especialista em fôrmas de madeira Paulo Assahi. Ele lembra os problemas que podem advir do mau planejamento do sistema, como dificuldades de transporte no canteiro, desaprumo da edificação, acabamento ruim do concreto e de revestimentos e patologias da alvenaria.

A atenção do projetista deve se voltar, simultaneamente, para as possibilidades de reaproveitamento e adaptação de materiais e para a produtividade. Afinal, enfatiza Assahi, "os prazos são cada vez menores, sendo preciso concretar e desformar com grande velocidade". Apesar da tendência contrária na construção, o projetista afirma ser possível, com fôrmas de madeira produzidas em canteiro, tornar uma obra tão racional quanto outra que utilize fôrmas industrializadas. E mais econômica, principalmente.

Assahi acredita que o porte e o padrão da maioria das obras ainda tem espaço para fabricação de fôrmas. "É difícil pensar em padronizar algo que, no Brasil, é totalmente despadronizado. A altura de viga vai desde 0,20 até 1,20 m variando de 1 em 1 cm", diz Assahi. "Se for necessário fazer adaptações, como fundos falsos, os sistemas industrializados deixam de ser interessantes para o partido estrutural que praticamos", explica. Leia entrevista completa.

Quando foi percebida a necessidade de um projeto específico para fôrmas?

Na década de 70, o engenheiro Toshio Ueno começou a dar uma conotação técnica ao assunto. Até então era tudo feito na obra, sem participação do engenheiro. Ele começou a elaborar um projeto para que as fôrmas pudessem ser fabricadas na obra, mas com medidas exatas. Era um processo não só de fabricação, mas de montagem pré-concebida. Na mesma época começaram a surgir os primeiros fabricantes de fôrmas a partir dos projetos de Ueno. Com o tempo essas empresas aprenderam e começaram a vender fôrma sem projeto. Existem cerca de dez empresas que fornecem dessa maneira.

E quais foram os resultados percebidos desde então?

Sem dúvida houve um ganho substancial tanto na produtividade quanto no consumo de materiais. Até hoje, 35 anos depois, nos baseamos na concepção do Ueno. Evidentemente surgiram novos materiais e conceitos, mas a idéia é a mesma.

Se as empresas aprenderam a fazer o projeto, carpinteiros e mestres-de-obras podem, então, substituir o projetista?

Teoricamente, sim. Mas não deve. Projetar não é simplesmente fornecer as medidas dos painéis e outros elementos. É um serviço técnico que requer conhecimentos de cálculos complexos. É verdade que dificilmente se ouve falar que uma fôrma caiu, mas geralmente abrem ou deformam. A tendência é errar pelo excesso. As construtoras acabam consumindo muito mais material e tempo do que precisam.

A otimização de recursos é inerente ao projeto?

Estamos falando de um produto cuja parcela de participação no custo total do empreendimento, imaginando-se um edifício padrão, está em torno de 7%, sendo que de 2 a 2,5% é o custo do material. O restante, de 4,5 a 5%, é o custo da montagem, desforma, transporte e remontagem. Então, quando se fala em otimizar o item fôrma, é preciso considerar esses dois aspectos. O projeto deve privilegiar o reaproveitamento e um mínimo de consumo de materiais.

E como isso é possível?

O projetista deve fazer um estudo global do pavimento-tipo, do primeiro andar, da garagem, do térreo e, dentro dessas variáveis, encontrar uma solução que, com pequenas modificações, garanta o maior número de reaproveitamentos. Há uma série de artifícios para se conseguir isso. Por exemplo, se uma viga da garagem tem 0,50 m de altura e outra, no térreo, tem 0,60 m, a opção é fazer um painel de 0,60 m com fundo falso, para a garagem, e reaproveitar a fôrma.

Como o projeto de fôrma pode melhorar a produtividade da mão-de-obra?

Dependendo do painel, pode-se gastar mais ou menos tempo para montar a fôrma. Se uma peça tem 2 x 3 m, posso fazer um painel único de 6 m2 que vai pesar 100 kg, ou posso secioná-lo, para que cada pedaço pese até 30 kg. Se não tiver equipamentos de transporte na obra, não posso projetar nenhuma peça com 100 kg. Quando uma só pessoa consegue transportar e montar, a produtividade cresce no todo.

Como posso otimizar custos produzindo fôrmas no canteiro?

Veja bem, tenho dois alvos a combater para que o total seja otimizado: os materiais e a mãos-de-obra. No nosso caso, a participação da mão-de-obra é maior. Prefiro reduzir 10% do custo da mão-de-obra, mesmo que em termos de consumo de materiais não consiga reduzir nada. O alvo a ser atingido é aquele que mais onera. Então, o projeto visa não só o reaproveitamento, mas produzir uma fôrma que seja montada rapidamente.

Produzir as fôrmas não é um contra-senso?

Não. As fôrmas são modificadas ao longo do uso. Quando temos carpinteiros na obra, isso é parte do serviço incorporado. Quando se usa fôrma pronta, nenhum fabricante se propõe a modificá-la. Quando muito vende um jogo e fornece novamente o que deve ser modificado. Dependendo da obra, o consumo de fôrma pronta é maior.

Usar fôrmas prontas não seria o caminho natural da racionalização?

A realidade brasileira é bem diferente daquela dos países de origem dos fabricantes de fôrmas industrializadas. Na Europa, os equipamentos são acessíveis e pode-se usar fôrmas pesadas. Além disso, as obras têm apenas pilar e laje, não fazem vigas. Os painéis padronizados, como os metálicos, resolvem bem, mas quando a estrutura é reticulada, como nas obras brasileiras, com vigas, pilares e lajes pequenas, esses sistemas de fôrmas podem não ser os mais adequados. É difícil pensar em padronizar algo que, no Brasil, é totalmente despadronizado. A altura de viga vai desde 0,20 até 1,20 m variando de 1 em 1 cm. Se for necessário fazer adaptações, como fundos falsos, os sistemas industrializados de fôrmas deixam de ser interessantes para o partido estrutural que praticamos.


Por que não mudar então esse partido estrutural?

Poderíamos fazer uma estrutura sem viga, mas há um consumo maior de aço e concreto. Logo, fica mais caro. Não é uma situação técnica, é uma opção econômica. Lá fora otimizam a operação e a mão-de-obra, que é muito cara. Aqui fazemos uma estrutura para que o consumo de materiais seja o mínimo em detrimento das horas que se gasta, porque a mão-de-obra é barata.

Como saber se é melhor comprar ou locar as fôrmas?

Quando a obra é rápida, tem só duas ou três lajes, é mais barato alugar do que comprar um material que tem potencial de ser reutilizado 10 vezes e vai ser usado duas. O primeiro fator determinante é o prazo. Nesse caso, por uma questão econômica, recomendo alugar o que for possível e completar com madeira. Quando a obra tem mais de quatro meses de prazo, passa a viabilizar a compra de materiais. Dependendo dos elementos, do prazo de execução e da quantidade, a locação do correspondente metálico pode ser mais cara que a própria aquisição.

Como o número de reutilizações da madeira é levado em consideração?

Hoje conseguimos fazer fôrmas que podem ser reutilizadas 20 vezes. É comum, na construção de prédios com peças que se repetem, fazer uma fôrma metálica e pré-moldar. São casos excepcionais, que requerem uso de gruas. Para fazer um prédio comum, com até 30 pavimentos, é possível fazer um único jogo de fôrmas e tentar utilizá-lo de uma maneira bastante eficiente.

Qual o trabalho do consultor durante a execução das fôrmas? De quem é a responsabilidade?

No meu caso específico, recolhe-se a ART [Anotação de Responsabilidade Técnica] e, mediante a classe de engenheiros, eu respondo tecnicamente durante a utilização, desde a montagem até a retirada total. Nós, projetistas, propomos ao contratante uma estrutura tecnicamente bem executada, com qualidade e produtividade esperadas. Parece ousadia prometer isso, mas a fôrma é a única responsável pela geometria da estrutura.

Mas, se não for bem executada, não adianta.

O projeto não garante, de fato, que o pilar vai ficar aprumado. Existe um procedimento de execução inserido no processo e, junto, a possibilidade de acompanhamento. Isso é feito mediante visitas periódicas à obra. Ao entregar o projeto, fazemos uma palestra de treinamento e explicamos o processo produtivo passo a passo. Não tenho nenhum contrato que desvincule o projeto da assistência técnica.

A qualificação da mão-de-obra é essencial nessa etapa?

Entendo o termo qualificação como a junção da habilidade profissional - de saber medir e cortar corretamente - à disciplina e obediência à hierarquia e ao procedimento. Além disso há o treinamento, que é a divulgação dos procedimentos. Para conferir frestas, falamos para o operário passar um prego e ver se passa. Nenhuma fresta, das milhares que existem entre painéis, pode ter uma medida que ultrapasse a de um prego. Esse tipo de instrução é o diferencial entre uma fôrma bem executada ou não.

É possível prever desvios da mão-de-obra no projeto?

Possível é, mas encarece. Fazer um reforço exagerado contra agressões vai tornar o produto mais caro e pesado. Melhor projetar prevendo a boa utilização da fôrma e fornecer um manual de utilização do equipamento. Um painel danificado vai ser substituído, não a fôrma inteira. Isso acontece bastante ao longo da obra. Pode-se até prever isso, especificando 1% por reaproveitamento. Se vai reaproveitar 20 vezes, é bom considerar que 20% dos painéis serão danificados.


Esse é um ponto a ser atacado para diminuir custos?

Sim, mas isso não quer dizer que vai se gastar 20% a mais. Recomendo prever uma reposição da ordem de 1% por reaproveitamento para não ter surpresa. Por mais que sejamos rígidos, sempre há esse tipo de incidente na obra. Além disso, a chapa pode apresentar problema de fabricação.

A fôrma pode ser responsável pela alteração do desempenho da estrutura?

Sim, com grande freqüência. Se não tiver estanqueidade deixa a nata do concreto escapar pelas frestas e a peça não vai atingir a resistência especificada. O elemento resistente saiu e a estrutura sofreu prejuízo de desempenho naquele trecho. O reescoramento também é importante. Por uma questão de competitividade, fazemos um único jogo de fôrmas, com alguns jogos de reescoramento, para uma concretagem por semana. A função de absorver toda essa ousadia - porque é uma ousadia quase no limite do razoável - é das escoras remanescentes. Se a operação for mal executada, a estrutura é prejudicada para sempre e vai deformar mais que o previsto. Conseqüentemente, podem ocorrer patologias.

Que tipo de patologias?

Patologias em alvenaria e revestimentos podem ser decorrentes de erros operacionais da fôrma, que causaram problema na deformabilidade da estrutura. Qualquer defeito desse tipo vai ter que ser escondido com uma quantidade de massa maior que a prevista. Uma fôrma bem executada é imprescindível para todos os outros sistemas.

Qual é a diferença do projeto de fôrmas para os demais?

Existem dois tipos de projetos, de produto e de produção. Arquitetura é um projeto do produto, assim como o projeto de estrutura e o das instalações elétrica e hidráulica. O nosso projeto é de produção. Temos que explicar, em desenho, como fazer para obter o resultado final. Uma folha de andar-tipo, por exemplo, resulta em até 20 folhas para detalhar o projeto de fôrmas. Como são os mestres e os carpinteiros que vão usar, o projeto deve ter uma linguagem adequada, para ser lido e entendido. Não pode ser interpretado.

Como a questão ambiental vem sendo tratada pelos projetistas e construtores?

O SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção no Estado de São Paulo), a SVMA (Secretaria do Verde e Meio Ambiente) e o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) publicaram, no ano passado, o livro Madeira: Uso Sustentável na Construção. Seguindo as recomendações dadas por esse manual, o problema ecológico, acredito, está resolvido. A recomendação é usar madeiras indicadas pelo estudo.

Como o projetista pode garantir a origem da madeira?

É difícil identificar botanicamente uma madeira que está na obra. A identificação requer um especialista. É preciso observar as recomendações de controle dos órgãos e das associações de fabricantes de chapas.